Tem algumas coisas na vida que é melhor não dizer. Porque, de tão horríveis, é melhor que permaneçam na obscuridade de tudo aquilo que nunca foi dito (clichê detected).
Uma vez numa aula de Física aprendi que todas as palavras já ditas, todos os barulhos já feitos, todos os latidos e miados já proferidos na superfície terrestre continuam existindo, em sua mais pura forma de ondas sonoras, viajando pela imensidão do Universo. E que, se topassem por aí com um ouvido ou qualquer outro equipamento sensível a estas ondas, tudo poderia ser decifrado. Seu conteúdo pode ser entendido.
Tá, eu não sei se eu ouvi isso mesmo ou se só viajei por essas bandas em uma aula de Física, mas real ou não, devaneio meunum misto meio aula meio sono meio sonho, essa teoria é a que mais medo me dá. Não por aquilo que alguém possa ouvir, mas por aquilo que alguém possa saber que fui eu quem falou.
Parece que tem coisas na vida da gente que ficam dez vezes piores depois que viram palavras. E isso é assustador.
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Desculpa, isso não fui eu falando, foi a parte de mim que ainda tem medo de resolver seus problemas. Afinal, o primeiro passo em direção à solução é assumir que se tem um problema. É assumir que sim, estou gorda, sim, estou doida, sim, ando bebendo demais. Identificamos e dizemos o que se passa, aí se sabe exatamente contra quem se está lutando. Essa sim sou eu. E sim, ainda tenho problemas na minha vida, mas tenho medo, morro de medo, da solução deles.
Medo de ter estado errada durante muito tempo e ter que por um fim. Medo de estar errada quanto à origem do problema e acabar, por assim dizer, matando o mensageiro. E medo de pensar todas essas coisas aos 30 anos.
Caramba, às vezes eu penso que, porra, eu só tenho 30 anos! E outras vezes, eu penso que, porra, eu já tenho 30 anos! Meio que fico entre um "eu sou muito nova pra viver assim" e um "eu sou muito velha pra agir assim".
Estranho colocar tudo isso em letras, porque são coisas aleatórias que passam na minha cabeça sem o menor propósito de fazerem um sentido agrupadas. E eu também não quero dar nome aos bois. Se o fizesse com certeza tudo ficaria coeso. Mas eu não quero talvez matar o mensageiro. E também não quero assumir a responsabilidade da solução.
Em tempo: nunca tomei um toco, um fora, um chega-pra-lá. Não que eu seja irresistível e o tipo que deixa vários corações amarrotados e pisoteados por aí, longe disso. Mas eu sempre soube muito bem identificar os problemas, encontrar a saída mais próxima ou até mesmo passar bem longe deles. Ou talvez eu nunca tenha tido muita piedade para com os mensageiros. Também sempre desisti de tudo muito rápido, e sempre fui muito vulnerável ao ambiente, de forma que a eu que entrava numa relação em nada lembrava a eu que saía. E eu não me transmutava na direção do outro. Eu sempre achava que aquilo que tínhamos em comum nunca tinha sido meu, de verdade. E isso me irritava, e eu deixava de gostar, saía numa corrida desenfreada para rever meus valores, conceitos, posicionamento com relação à pena de morte e gostos musicais. E, no fim de tudo, via que nada mais restava para dividir. Porque EU tinha mudado. Porque o MEU ego não fica na mesma casa com outro de mesma cor e tamanho. Porque EU odeio ver uma releitura tosca daquilo que sou.
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Não deveria publicar, já que palavras salvas num blog são muito mais perigosas que palavras correndo o infinito em forma de ondas sonoras. Mas foi.
P.S.: Msn com a Teka, sempre chega um momento que uma das duas diz: calma amiga, que vou te ligar. Tem coisas que não se escreve.
Desconfigurei?
É tudo meio vomitado, mas o português é impecável. Juro.
domingo, 1 de maio de 2011
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Panquecas
Tem coisa melhor do que cozinhar bebendo um vinho?
Tá, até tem, mas vai dizer, é muito bom. Hoje do meu fogão com o vinho saíram panquecas de brócolis ao molho gongonzola. Inventei. Porque quando eu estou feliz, eu invento muito. E nada me faz mais feliz do que me sentir cuidadora.
Sabe a pessoa que esquenta a barriga no fogão e esfria no tanque? Pois é mãe, sou dessas, desculpa. Sei que não foi pra isso que tu me educou, mas não dá pra lutar contra o instinto. Só que eu sou feliz assim. Já me disseram que o nome disso é prepotência. Porque gente assim acha que tem o poder de fazer os reles mortais sentirem-se bem e seguros. É verdade, sou dessas também. Acho que tenho superpoderes. Aí eu vou lá no fundo do inconsciente e, de vez em quando, saio, encho a cara, chego tarde e faço de conta que nenhuma felicidade do mundo depende de mim. E é bom enquanto dura. Mas aí eu volto pra casa, sirvo uma taça de cabernet e construo do nada 12 panquecas de brócolis ao molho gorgonzola. E encontro olhares de gratidão por eu me preocupar com o almoço do dia seguinte. Aí eu lembro que, na verdade, é a minha felicidade que depende disso.
Tá, até tem, mas vai dizer, é muito bom. Hoje do meu fogão com o vinho saíram panquecas de brócolis ao molho gongonzola. Inventei. Porque quando eu estou feliz, eu invento muito. E nada me faz mais feliz do que me sentir cuidadora.
Sabe a pessoa que esquenta a barriga no fogão e esfria no tanque? Pois é mãe, sou dessas, desculpa. Sei que não foi pra isso que tu me educou, mas não dá pra lutar contra o instinto. Só que eu sou feliz assim. Já me disseram que o nome disso é prepotência. Porque gente assim acha que tem o poder de fazer os reles mortais sentirem-se bem e seguros. É verdade, sou dessas também. Acho que tenho superpoderes. Aí eu vou lá no fundo do inconsciente e, de vez em quando, saio, encho a cara, chego tarde e faço de conta que nenhuma felicidade do mundo depende de mim. E é bom enquanto dura. Mas aí eu volto pra casa, sirvo uma taça de cabernet e construo do nada 12 panquecas de brócolis ao molho gorgonzola. E encontro olhares de gratidão por eu me preocupar com o almoço do dia seguinte. Aí eu lembro que, na verdade, é a minha felicidade que depende disso.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Da Falácia da Inversão do Ônus da Prova
Não sou filósofa, mas tive aulas com o Dr. Hingo Weber no colégio, então me sinto um tanto quanto à vontade para falar sobre esse assunto. Claro que alguns anos mais provando hipóteses nulas e derrubando hipóteses alternativas e vice versa também ajudam.
Enfim, uma coisa que acontece comumente nas mais variadas discussões, tanto em fóruns sociais quanto em fóruns virtuais, é o apelo a falácia da inversão do ônus da prova. É bem simples, meu sobrinho de três anos entende: se eu digo que dinossauros existiram um dia, sem que eu nunca os tenha visto, e alguém me refuta, fala que eu chupei um tóxico, cabe a mim trazer o fêmur de um T. rex pra provar que sim, dinossauros existiram. E se quem me refutou continua não acreditando, dizendo que aquilo é um fêmur de elefante, cabe a mim submeter meu fóssil a uma datação por carborno 14 ou o catzo. Enfim, cabe a quem diz que algo existe o ônus de provar a sua afirmação.
Então, se eu digo que eu não vejo um livro sobre a mesa, ou se eu digo que deus não existe, ou se eu digo que minha gata não está soltando pelos, cabe ao meu opositor no diálogo me provar que sim, há um livro sobre a mesa, que sim, há um deus e que sim, meu apartamento está coberto de pelos.
Tomando isto não por filosofia, mas por uma regra lógica básica, podemos voltar às argumentações.
Enfim, uma coisa que acontece comumente nas mais variadas discussões, tanto em fóruns sociais quanto em fóruns virtuais, é o apelo a falácia da inversão do ônus da prova. É bem simples, meu sobrinho de três anos entende: se eu digo que dinossauros existiram um dia, sem que eu nunca os tenha visto, e alguém me refuta, fala que eu chupei um tóxico, cabe a mim trazer o fêmur de um T. rex pra provar que sim, dinossauros existiram. E se quem me refutou continua não acreditando, dizendo que aquilo é um fêmur de elefante, cabe a mim submeter meu fóssil a uma datação por carborno 14 ou o catzo. Enfim, cabe a quem diz que algo existe o ônus de provar a sua afirmação.
Então, se eu digo que eu não vejo um livro sobre a mesa, ou se eu digo que deus não existe, ou se eu digo que minha gata não está soltando pelos, cabe ao meu opositor no diálogo me provar que sim, há um livro sobre a mesa, que sim, há um deus e que sim, meu apartamento está coberto de pelos.
Tomando isto não por filosofia, mas por uma regra lógica básica, podemos voltar às argumentações.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Ateísta não come criancinhas
Não preciso justificar o fato de não acreditar. É absurdamente ilógico. É como explicar que não vejo um livro em cima da mesa porque não há um livro em cima da mesa, ou ter que explicar que não ouço uma música porque não tem nada tocando. E mesmo assim, a gente sempre se vê obrigado a ouvir pregações e a ter de dar satisfações do porquê de não acreditar em deus.
Eu não acredito porque não vejo, porque não tenho provas. E por que alguém acredita?
Bem, tudo tem uma razão, e o fato de eu não acreditar não significa que um dia a "existência" de deus não tenha sido importante. Tanto que os primeiros registros arqueológicos de cultura na nossa espécie remetem à prática mais antiga: o culto ao desconhecido, o tratamento com os mortos, os rituais fúnebres. Totalmente compreensível. Imagine você, sozinho, fraco, cercado de mamíferos dez vezes mais fortes, mais ágeis, louquinhos para comer a sua deliciosa carne. Agora imagine você, e mais uns vinte de você. Aquele mamífero gigante já não é tão assustador. O medo foi dividido 20 vezes. Muito mais simples. Muito mais seguro viver em bandos, um protegendo os outros. O ser humano é um ser social, não há dúvidas. E isto não nos torna muito diferentes das formigas, das abelhas, dos orangotangos. Não é novidade nenhuma na cadeia evolutiva ser social. Mas este fato, esta sociabilidade que surgiu em determinado momento da evolução foi determinante na hora de sermos selecionados positivamente como uma espécie apta a sobreviver na Terra (aqui sim eu uso uma letra maiúscula). E acredito que a religião teve um papel importantíssimo quando o assunto era manter um bando de macacões pelados unido.
Sociedade nenhuma se organiza sem regras. A religião serviu para ditar as regras para um bando que não era mais sensível aos ferormônios como as abelhas e as formigas, serviu para impedir que um comesse ao outro, que um matasse a cria alheia para que sobrasse mais suprimento para si. Mais tarde, impediu que familiares casassem entre si, evitando assim a extinção de clãs em função de anomalias genéticas, impediu que seus líderes tivessem famílias, para que pudessem dedicar-se exclusivamente aos cuidados com o seu grupo. E acima de tudo, a religião cumpriu muito bem o seu papel de explicar (de maneira lúdica e instigante) princípios de moral e ética a seres que não entendiam o fato de não poder simplesmente enfiar uma espada na cabeça de quem lhe aporrinhasse.
Bem, eu e muita gente não precisamos de um deus, um ícone, um jesus qualquer dizendo no nosso ouvido que não devemos matar porque é feio, que não devemos ser desleais pra não arder no inferno. Também não precisamos que nos digam que devemos ser gratos e ficar felizes com o que temos. Poxa, a gente lê jornal, acessa a internet e sabe que tá assim de gente lá fora com problemas muito piores que os nossos. E acreditem, a gente se entristece de ver que em muitos lugares tem criança que morre de fome, que tem mulher que morre apedrejada, que tem pai que fica sem comer pra dar aos filhos. Ou seja, ateístas ou não, temos capacidade de EMPATIA, o que muitos religiosos chamam de ter "deus no coração"(putz, ter algo onipresente, onipotente e onisciente no coração poderia muito bem entupir a aorta, né? tá, desculpa, #shameonme).
Empatia nada mais é do que a capacidade de se colocar no lugar de outrém e imaginar o quanto aquela situação pela qual ele passa o faz sofrer ou o faz feliz. A falta de empatia faz um psicopata. E um psicopata não é necessariamente um assasino serial killer, é apenas alguém que não entende o sofrimento que não seja o seu.
Enfim, somos ateístas, somos empáticos, mas não simpáticos. Eu e todos os outros de nós não saímos por aí matando os nossos desamores. E não é por que deus acha feio ou porque temos medo da danação eterna. É porque a gente sabe que matar é errado. A gente sabe que vai doer em quem morrer, que por mais que o cara seja um tremendo de um sacana, ele provavelmente tem uma família que vai ficar muito triste, mesmo sendo uma família de sacanões e sacaninhas. A religião não é mais necessária para nos ensinar o certo e o errado. Nossa capacidade de abstração nos permite entender que regras são necessárias para o bom funcionamento de uma sociedade. Não precisamos que uma entidade fictícia escolha os nossos feijões, separe o bom do mau. Assim como uns nascem sem sisos, outros têm o último par de costelas menor, e assim como um dia nosso intestino diminuiu e ganhamos um apêndice, nós aqui deste bando não temos religião. Simples assim.
Entretanto, não somos super heróis, X-Men ou Freakazóides, nem estou aqui chamando ninguém de primata.Experimente perguntar para um ateísta se ele acha que seria mais feliz sendo religioso. Pode apostar, a resposta será sim. O ateísmo te coloca num patamar tal de responsabilidade, e agora você não pode mais jogar a culpa em deus pelo fato de você ser pobre, ou de ser burro, ou de ser feio ou de ser um azarado. Não foi deus quem quis assim, você sabe. Ateístas não têm um bode expiatório para levar as culpas da mesma forma que não têm um benfeitor a agradecer pelos acasos. E ateísta não tem inferno, mas também não tem paraíso, nem céu com querubins, nem sete virgens esperando numa escada marmorizada. Os pais do ateísta não viraram estrelas, seus filhos não viram anjinhos, seus cachorrinhos não foram para uma fazenda de jesus cheia de outros cachorrinhos para brincar. A gente sofre, é de carne e osso como todo mundo, e busca em outros lugares a melhor forma de aplacar as dores de viver. Com certeza tomamos muito mais prozac, zoloft, diazepínicos e rivotrils.
E a gente sofre. Eu sofro quando ouço quem diz que eu não tenho amor no coração, quando dizem para minhas filhas que todos os problemas que elas têm na vida devem-se ao fato de não serem batizadas. Pelo preconceito, pela agressividade, pela intolerância, eu sofro. Assim como choro vendo gente brigar por religião, por alás ou jeovás, pelo alcorão e pelo talmud. E eu sofro quando tenho que explicar tudo isso que disse aqui para um religioso que não me apresentou nenhuma prova concreta que me fizesse abraçar o seu deus. Quando eu vejo que ateístas não agridem ninguém por sua fé, muito pelo contrário, entendem e ainda explicam, justificam e são condescendentes com a necessidade de espiritualidade e separação de alma da mente. Eu me entristeço. Mas me acalmo no pensamento de que é tudo parte da evolução. E de que minhas dores são de crescimento.
Eu não acredito porque não vejo, porque não tenho provas. E por que alguém acredita?
Bem, tudo tem uma razão, e o fato de eu não acreditar não significa que um dia a "existência" de deus não tenha sido importante. Tanto que os primeiros registros arqueológicos de cultura na nossa espécie remetem à prática mais antiga: o culto ao desconhecido, o tratamento com os mortos, os rituais fúnebres. Totalmente compreensível. Imagine você, sozinho, fraco, cercado de mamíferos dez vezes mais fortes, mais ágeis, louquinhos para comer a sua deliciosa carne. Agora imagine você, e mais uns vinte de você. Aquele mamífero gigante já não é tão assustador. O medo foi dividido 20 vezes. Muito mais simples. Muito mais seguro viver em bandos, um protegendo os outros. O ser humano é um ser social, não há dúvidas. E isto não nos torna muito diferentes das formigas, das abelhas, dos orangotangos. Não é novidade nenhuma na cadeia evolutiva ser social. Mas este fato, esta sociabilidade que surgiu em determinado momento da evolução foi determinante na hora de sermos selecionados positivamente como uma espécie apta a sobreviver na Terra (aqui sim eu uso uma letra maiúscula). E acredito que a religião teve um papel importantíssimo quando o assunto era manter um bando de macacões pelados unido.
Sociedade nenhuma se organiza sem regras. A religião serviu para ditar as regras para um bando que não era mais sensível aos ferormônios como as abelhas e as formigas, serviu para impedir que um comesse ao outro, que um matasse a cria alheia para que sobrasse mais suprimento para si. Mais tarde, impediu que familiares casassem entre si, evitando assim a extinção de clãs em função de anomalias genéticas, impediu que seus líderes tivessem famílias, para que pudessem dedicar-se exclusivamente aos cuidados com o seu grupo. E acima de tudo, a religião cumpriu muito bem o seu papel de explicar (de maneira lúdica e instigante) princípios de moral e ética a seres que não entendiam o fato de não poder simplesmente enfiar uma espada na cabeça de quem lhe aporrinhasse.
Bem, eu e muita gente não precisamos de um deus, um ícone, um jesus qualquer dizendo no nosso ouvido que não devemos matar porque é feio, que não devemos ser desleais pra não arder no inferno. Também não precisamos que nos digam que devemos ser gratos e ficar felizes com o que temos. Poxa, a gente lê jornal, acessa a internet e sabe que tá assim de gente lá fora com problemas muito piores que os nossos. E acreditem, a gente se entristece de ver que em muitos lugares tem criança que morre de fome, que tem mulher que morre apedrejada, que tem pai que fica sem comer pra dar aos filhos. Ou seja, ateístas ou não, temos capacidade de EMPATIA, o que muitos religiosos chamam de ter "deus no coração"(putz, ter algo onipresente, onipotente e onisciente no coração poderia muito bem entupir a aorta, né? tá, desculpa, #shameonme).
Empatia nada mais é do que a capacidade de se colocar no lugar de outrém e imaginar o quanto aquela situação pela qual ele passa o faz sofrer ou o faz feliz. A falta de empatia faz um psicopata. E um psicopata não é necessariamente um assasino serial killer, é apenas alguém que não entende o sofrimento que não seja o seu.
Enfim, somos ateístas, somos empáticos, mas não simpáticos. Eu e todos os outros de nós não saímos por aí matando os nossos desamores. E não é por que deus acha feio ou porque temos medo da danação eterna. É porque a gente sabe que matar é errado. A gente sabe que vai doer em quem morrer, que por mais que o cara seja um tremendo de um sacana, ele provavelmente tem uma família que vai ficar muito triste, mesmo sendo uma família de sacanões e sacaninhas. A religião não é mais necessária para nos ensinar o certo e o errado. Nossa capacidade de abstração nos permite entender que regras são necessárias para o bom funcionamento de uma sociedade. Não precisamos que uma entidade fictícia escolha os nossos feijões, separe o bom do mau. Assim como uns nascem sem sisos, outros têm o último par de costelas menor, e assim como um dia nosso intestino diminuiu e ganhamos um apêndice, nós aqui deste bando não temos religião. Simples assim.
Entretanto, não somos super heróis, X-Men ou Freakazóides, nem estou aqui chamando ninguém de primata.Experimente perguntar para um ateísta se ele acha que seria mais feliz sendo religioso. Pode apostar, a resposta será sim. O ateísmo te coloca num patamar tal de responsabilidade, e agora você não pode mais jogar a culpa em deus pelo fato de você ser pobre, ou de ser burro, ou de ser feio ou de ser um azarado. Não foi deus quem quis assim, você sabe. Ateístas não têm um bode expiatório para levar as culpas da mesma forma que não têm um benfeitor a agradecer pelos acasos. E ateísta não tem inferno, mas também não tem paraíso, nem céu com querubins, nem sete virgens esperando numa escada marmorizada. Os pais do ateísta não viraram estrelas, seus filhos não viram anjinhos, seus cachorrinhos não foram para uma fazenda de jesus cheia de outros cachorrinhos para brincar. A gente sofre, é de carne e osso como todo mundo, e busca em outros lugares a melhor forma de aplacar as dores de viver. Com certeza tomamos muito mais prozac, zoloft, diazepínicos e rivotrils.
E a gente sofre. Eu sofro quando ouço quem diz que eu não tenho amor no coração, quando dizem para minhas filhas que todos os problemas que elas têm na vida devem-se ao fato de não serem batizadas. Pelo preconceito, pela agressividade, pela intolerância, eu sofro. Assim como choro vendo gente brigar por religião, por alás ou jeovás, pelo alcorão e pelo talmud. E eu sofro quando tenho que explicar tudo isso que disse aqui para um religioso que não me apresentou nenhuma prova concreta que me fizesse abraçar o seu deus. Quando eu vejo que ateístas não agridem ninguém por sua fé, muito pelo contrário, entendem e ainda explicam, justificam e são condescendentes com a necessidade de espiritualidade e separação de alma da mente. Eu me entristeço. Mas me acalmo no pensamento de que é tudo parte da evolução. E de que minhas dores são de crescimento.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
É muito difícil
Que me desculpem as bem amadas, as bem casadas, as senhoras dos óculos cor de rosa. Ser mulher não é maravilhoso, não é uma dádiva, não é uma bênção. Ser mulher é foda. Desculpem os superlativos, mas ser mulher é foda master, super, ultra blaster.
Porque por ser mulher, nascemos com o dom da culpa. Somos responsáveis pela burrice extrema de sair numa linda manhã de primavera, linda loura e perfumada, de saia justa e blusa branca, e ser pega por uma tempestade no meio da tarde. Sempre as culpadas pela cara feia do marido, lógico que ele não chegou de mau humor do trabalho, com certeza esse nariz de quem cheirou e não gostou é por alguma coisa que você deixou de fazer. Orçamento estourado, lógico que fui eu! Ninguém mandou comprar aquele creme tão cheiroso de 12 reais da Nivea.
Louça mal lavada, óbvio! A imbecil precisava mesmo ter feito as unhas justo naquele dia? E se, depois de um dia inteiro de trabalho, esquecemos de passar no super, nossa, quanta incompetência! E como faz amanhã pra almoçar sem alfaces frescos e tomates vermelhinhos? Pior ainda, como assim tomar café da manhã com um pão do dia anterior?
Não adianta, a culpa é sempre minha, de mais ninguém.
E não venha me dizer que tudo melhora quando temos filhos, que nos sentimos mais seguras, que começamos a confiar mais em nós mesmas... pra cima de moi não, cherrie. Ser mulher e mãe é agregar o sentimento de impotência à culpa. Porque por mais que coloquemos os bebês a ouvir Beatles e The Doors antes de dormir, eles crescem e começam a gostar de Restart. A culpa é sua, porque não pôde educar desde o útero. Por mais que estudemos horas a fio matemática, geografia e mais um monte de coisas que já estavam há anos empacotadas nos confins do subconsciente, se o bebezão vai mal na escola, a culpa é sua e de mais ninguém. E somos culpadas porque somos impotentes, quando deveríamos ser como um deus uno e trino. Aliás, isso de deus três em um, e de mãe ser deus na terra, faz católicas e cristãs em geral crescerem com a convicção de que as mães devem estar em todos os lugares, saber de tudo, poder fazer de tudo. E as freiras seguem propagando esta balela nos colégios por quê? Ah, coitadas, não podem ter filhos...
Mentira, mentira, mentira! Mais mentirosa ainda aquela que diz que ser mãe é um presente. Só se for presente de grego. Porque, mesmo depois de anos de terapia, de muito ralar e bater com a cabeça na patente, quando você finalmente entende que não é culpada de tudo e não pode fazer de tudo, vem um desses pirralhos dos quais tanta bunda limpamos e tanto batemos no peito proclamando "esse é meu garoto", quando mesmo depois de todos os esforços em passar por cima dos nossos sentimentos e das bobagens que esta pequena criatura possa ter feito na vida, mesmo assim, vem o pequeno gafanhoto e diz: mãe, não reclama de mim, foi você quem me criou assim.
Ah, quer saber? Vão a puta que vos pariu! Maldita a hora em que a oviparidade deixou de ser vantagem evolutiva e o cuidado parental decisivo na sobrevivência de uma espécie. Ou você acha que as sapas andam pulando assim faceirinhas por quê?
Porque por ser mulher, nascemos com o dom da culpa. Somos responsáveis pela burrice extrema de sair numa linda manhã de primavera, linda loura e perfumada, de saia justa e blusa branca, e ser pega por uma tempestade no meio da tarde. Sempre as culpadas pela cara feia do marido, lógico que ele não chegou de mau humor do trabalho, com certeza esse nariz de quem cheirou e não gostou é por alguma coisa que você deixou de fazer. Orçamento estourado, lógico que fui eu! Ninguém mandou comprar aquele creme tão cheiroso de 12 reais da Nivea.
Louça mal lavada, óbvio! A imbecil precisava mesmo ter feito as unhas justo naquele dia? E se, depois de um dia inteiro de trabalho, esquecemos de passar no super, nossa, quanta incompetência! E como faz amanhã pra almoçar sem alfaces frescos e tomates vermelhinhos? Pior ainda, como assim tomar café da manhã com um pão do dia anterior?
Não adianta, a culpa é sempre minha, de mais ninguém.
E não venha me dizer que tudo melhora quando temos filhos, que nos sentimos mais seguras, que começamos a confiar mais em nós mesmas... pra cima de moi não, cherrie. Ser mulher e mãe é agregar o sentimento de impotência à culpa. Porque por mais que coloquemos os bebês a ouvir Beatles e The Doors antes de dormir, eles crescem e começam a gostar de Restart. A culpa é sua, porque não pôde educar desde o útero. Por mais que estudemos horas a fio matemática, geografia e mais um monte de coisas que já estavam há anos empacotadas nos confins do subconsciente, se o bebezão vai mal na escola, a culpa é sua e de mais ninguém. E somos culpadas porque somos impotentes, quando deveríamos ser como um deus uno e trino. Aliás, isso de deus três em um, e de mãe ser deus na terra, faz católicas e cristãs em geral crescerem com a convicção de que as mães devem estar em todos os lugares, saber de tudo, poder fazer de tudo. E as freiras seguem propagando esta balela nos colégios por quê? Ah, coitadas, não podem ter filhos...
Mentira, mentira, mentira! Mais mentirosa ainda aquela que diz que ser mãe é um presente. Só se for presente de grego. Porque, mesmo depois de anos de terapia, de muito ralar e bater com a cabeça na patente, quando você finalmente entende que não é culpada de tudo e não pode fazer de tudo, vem um desses pirralhos dos quais tanta bunda limpamos e tanto batemos no peito proclamando "esse é meu garoto", quando mesmo depois de todos os esforços em passar por cima dos nossos sentimentos e das bobagens que esta pequena criatura possa ter feito na vida, mesmo assim, vem o pequeno gafanhoto e diz: mãe, não reclama de mim, foi você quem me criou assim.
Ah, quer saber? Vão a puta que vos pariu! Maldita a hora em que a oviparidade deixou de ser vantagem evolutiva e o cuidado parental decisivo na sobrevivência de uma espécie. Ou você acha que as sapas andam pulando assim faceirinhas por quê?
terça-feira, 17 de agosto de 2010
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Voltei... again!
Há blog depois do Twitter! Achei até que tinham me deletado!
Mas eu voltei porque senti vontade de extravasar os 140 caracteres. Porque senti aquele formigamento habitual no cotovelo que precede a verborreia. Porque eu preciso escrever as coisas que vão aqui, entre os neurônios, e não só contar tudo pra minha mãe. Senti falta de registros, e eu sou daquelas pessoas que depois de pregar uma lição de moral em alguém corre pros seus escritos, diários, blogs e tweets pra ver se não foi incoerente de alguma forma. Sim, eu mudo de ideia muito rápido, e as ideias também me transformam estupidamente.
Engraçado que a verborreia vem sempre porque eu chutei algum balde, quebrei algum barraco, derrubei cadeiras ou saí caminhando sobre vidros estilhaçados enquanto pequenos focos de incêncio iluminavam a cena da devastação. Porque deixar pedra sobre pedra é para os fracos. Eu gosto é da detonação.
E olha, demorou muito, mas eu botei fogo no apartamento, trouxe a coca-cola e pus a mesa. Decidi que não quero mais as causalidades, nem definir os porquês, ou modular variáveis, nem protocolar as ações ou tratar estatisticamente os dados. Agora eu sou mais uma dessas que vai lá e faz.
O teto me incomoda, e olha que eu sou baixinha! Não quero mais limitar a atividade e deixar tudo lá quietinho até o outro dia de manhã. Eu quero o agora, o agito, o trend, o hype. Eu quero o que todo mundo quer mas não sabe traduzir. Quero nada azul, tudo exageradamente amarelo!
Mas eu voltei porque senti vontade de extravasar os 140 caracteres. Porque senti aquele formigamento habitual no cotovelo que precede a verborreia. Porque eu preciso escrever as coisas que vão aqui, entre os neurônios, e não só contar tudo pra minha mãe. Senti falta de registros, e eu sou daquelas pessoas que depois de pregar uma lição de moral em alguém corre pros seus escritos, diários, blogs e tweets pra ver se não foi incoerente de alguma forma. Sim, eu mudo de ideia muito rápido, e as ideias também me transformam estupidamente.
Engraçado que a verborreia vem sempre porque eu chutei algum balde, quebrei algum barraco, derrubei cadeiras ou saí caminhando sobre vidros estilhaçados enquanto pequenos focos de incêncio iluminavam a cena da devastação. Porque deixar pedra sobre pedra é para os fracos. Eu gosto é da detonação.
E olha, demorou muito, mas eu botei fogo no apartamento, trouxe a coca-cola e pus a mesa. Decidi que não quero mais as causalidades, nem definir os porquês, ou modular variáveis, nem protocolar as ações ou tratar estatisticamente os dados. Agora eu sou mais uma dessas que vai lá e faz.
O teto me incomoda, e olha que eu sou baixinha! Não quero mais limitar a atividade e deixar tudo lá quietinho até o outro dia de manhã. Eu quero o agora, o agito, o trend, o hype. Eu quero o que todo mundo quer mas não sabe traduzir. Quero nada azul, tudo exageradamente amarelo!
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