Tem algumas coisas na vida que é melhor não dizer. Porque, de tão horríveis, é melhor que permaneçam na obscuridade de tudo aquilo que nunca foi dito (clichê detected).
Uma vez numa aula de Física aprendi que todas as palavras já ditas, todos os barulhos já feitos, todos os latidos e miados já proferidos na superfície terrestre continuam existindo, em sua mais pura forma de ondas sonoras, viajando pela imensidão do Universo. E que, se topassem por aí com um ouvido ou qualquer outro equipamento sensível a estas ondas, tudo poderia ser decifrado. Seu conteúdo pode ser entendido.
Tá, eu não sei se eu ouvi isso mesmo ou se só viajei por essas bandas em uma aula de Física, mas real ou não, devaneio meunum misto meio aula meio sono meio sonho, essa teoria é a que mais medo me dá. Não por aquilo que alguém possa ouvir, mas por aquilo que alguém possa saber que fui eu quem falou.
Parece que tem coisas na vida da gente que ficam dez vezes piores depois que viram palavras. E isso é assustador.
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Desculpa, isso não fui eu falando, foi a parte de mim que ainda tem medo de resolver seus problemas. Afinal, o primeiro passo em direção à solução é assumir que se tem um problema. É assumir que sim, estou gorda, sim, estou doida, sim, ando bebendo demais. Identificamos e dizemos o que se passa, aí se sabe exatamente contra quem se está lutando. Essa sim sou eu. E sim, ainda tenho problemas na minha vida, mas tenho medo, morro de medo, da solução deles.
Medo de ter estado errada durante muito tempo e ter que por um fim. Medo de estar errada quanto à origem do problema e acabar, por assim dizer, matando o mensageiro. E medo de pensar todas essas coisas aos 30 anos.
Caramba, às vezes eu penso que, porra, eu só tenho 30 anos! E outras vezes, eu penso que, porra, eu já tenho 30 anos! Meio que fico entre um "eu sou muito nova pra viver assim" e um "eu sou muito velha pra agir assim".
Estranho colocar tudo isso em letras, porque são coisas aleatórias que passam na minha cabeça sem o menor propósito de fazerem um sentido agrupadas. E eu também não quero dar nome aos bois. Se o fizesse com certeza tudo ficaria coeso. Mas eu não quero talvez matar o mensageiro. E também não quero assumir a responsabilidade da solução.
Em tempo: nunca tomei um toco, um fora, um chega-pra-lá. Não que eu seja irresistível e o tipo que deixa vários corações amarrotados e pisoteados por aí, longe disso. Mas eu sempre soube muito bem identificar os problemas, encontrar a saída mais próxima ou até mesmo passar bem longe deles. Ou talvez eu nunca tenha tido muita piedade para com os mensageiros. Também sempre desisti de tudo muito rápido, e sempre fui muito vulnerável ao ambiente, de forma que a eu que entrava numa relação em nada lembrava a eu que saía. E eu não me transmutava na direção do outro. Eu sempre achava que aquilo que tínhamos em comum nunca tinha sido meu, de verdade. E isso me irritava, e eu deixava de gostar, saía numa corrida desenfreada para rever meus valores, conceitos, posicionamento com relação à pena de morte e gostos musicais. E, no fim de tudo, via que nada mais restava para dividir. Porque EU tinha mudado. Porque o MEU ego não fica na mesma casa com outro de mesma cor e tamanho. Porque EU odeio ver uma releitura tosca daquilo que sou.
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Não deveria publicar, já que palavras salvas num blog são muito mais perigosas que palavras correndo o infinito em forma de ondas sonoras. Mas foi.
P.S.: Msn com a Teka, sempre chega um momento que uma das duas diz: calma amiga, que vou te ligar. Tem coisas que não se escreve.
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