Era manhã de segunda-feira, e Maria Joana acordava meio tonta, totalmente atrasada. Dormira na casa de Maurício Fernando, um playboy com quem estava saindo havia algumas semanas.
-Atrasada pro trabalho, tô mega atrasada pro trabalho! Porra, não tem condicionador nesse apartamento?
Estava só de calcinha, nem ela sabe como que ainda estava de calcinha, na verdade não sabia nem como havia chegado até a cama. Mas o fato era que estavam lá, ela e sua calcinha, lilás, cheia de frufruzinhos brancos e, como não podia deixar de ser, enfiada na bunda. Desfez-se da peça mínima, jogando-a em meio às revistas masculinas que decoravam o piso frio e foi direto ao chuveiro.
- Toma, usa essa toalha mesmo. Corre que vou preparar teu café - Maurício bate a porta e a deixa sozinha com sua cefaléia.
Ao sair do banheiro a nuvem de vapor que acompanha seu corpo mistura-se à fumaça do cigarro de Maurício, e o cheiro do shampoo ao sempre bem vindo aroma de café. A variação de temperatura faz com que cada pelo de seu corpo se ourice, o frio era tanto naquele quarto, tudo por causa do maldito ar condicionado. Ela mal tem tempo de recolher suas coisas, amontoa tudo num canto, veste o primeiro vestido que encontra, abarrota o que sobra na mochila. Engole o café, dá um beijo de despedida, 'outro dia a gente se vê', pega o carro e sai em disparada pelas ruas de Gothan City.
O dia corre como o esperado, ou seja, corre. Mas naquele dia, justo naquele dia, as coisas tinham outra cor. Uma cor azul, a cor dos olhos de Maurício. Tinha certeza de que estava ficando apaixonada, 'puta merda, tudo de novo', e não podia fazer nada a respeito. Logo ele, o tipo certo do cara errado.
Ao chegar em casa, no fim do dia, Joana pára para arrumar suas coisas, aquele monte de roupa jogada no fundo da mochila laranja. Entre suas inúmeras manias e compulsões, estava a de lavar toda a sua roupa íntima à mão e com sabão específico, e foi por esse motivo que ela procurou a tão querida calciha lilás (usara ela mesma no dia em que conheceu o garoto marrento Maurício Fernando). Procurou a calcinha lilás e não encontrou.
-Ah, isso não! Posso nunca mais ver o Maurício, mas a calcinha eu quero! A mania retardada de guardar tickets de pedágio, tampinhas de garrafa, rolhas de champanhe, embalagens de bombons/chicletes/camisinhas... Mais uma das compulsões.
Procurou a lingerie incansavelmente por todos os cantos do quarto, dentro do carro, no trabalho, durante três dias. Rememorando a cena da manhã de segunda, lembrou-se do chão coberto de fotos de peitos e bundas e viu nitidamente a dita underwear no meio daquela bagunça privê. Ela nem respira, vai direto ao telefone:
-Alô? Mauricinho? Oi, Joana, tá lembrado, né?
-E aí gostosa? Qualé? Saudades?
Realmente o vocabulário dele não corresponderia nunca àquela imagem de príncipe encantado que a garota vinha insistentemente elaboranto no fundo de seu coraçãozinho apaixonado retrô. Respira fundo, o mundo nunca será perfeito e nem tudo que é justo é certo...
-Ahm, sim, mas eu queria mesmo era saber se tu achou minha calcinha perdida por aí, no teu banheiro...
-Ai, querida, achei sim, uma vermelha, né? Eu não sabia de quem era, joguei no lixo...
Silêncio. Desce uma lágrima pelo rosto da menina. Aí ela percebe o quanto realmente estava apaixonada...
To be continued...
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