-Joana? Maria Joana? Tá aí ainda? Era brincadeira! Não achei nada não, mas pode deixar que se aparecer eu te falo, tá? A propósito, vamos tomar um café?
Suspiros, dos dois lados da linha. Taquicardia pegada no peito de Joana.
-Cla-cla-claro... Vamos sim... Me pega no meu intervalo amanhã? E antes que eu me esqueça: tu é um palhaço retardado!
-É, um palhaço retardado que não parou de pensar em ti durante a semana...
Borboletas frenéticas no estômago da garota. E ela podia enxergar aquele sorriso sacana no rosto de Maurício, o sorriso que só a ele pertencia.
Ali começou algo que parecia um relacionamento. E o mistério da calcinha perdurava. E o relacionamento também.
Um dia, ou uma noite, não se sabe ao certo, jogados, arrasados, na cama arrasada, com o sangue novamente fluindo preferencialmente no cérebro, Maurício tem um de seus lampejos de sensatez:
-Arrááááááá!!!!
-Hmmmm, mmmmm, mmmmmm, que foi agoraaaaa?
-Gatinha, tu deixou tua calcinha lá em casa numa segunda, certo?
-Aham... nem lembrava mais disso! Esquece isso agora, eu já tava quase dormindo...
-Peraí coxão!!! Olha só!! Então já sei o que aconteceu! A empregada foi limpar o apê naquele dia, deve ter achado e jogado no cesto de roupa suja!!!
Coxão... era tudo o que ela não merecia! Mas deixa pra lá, afinal, era bem coisa de Maurício Fernando.
-Mas e isso faz quanto tempo?? Um mês!!! Tu ainda não esvaziou o cesto????
-Ahmm, não! Vamos procurar...
Viraram o cesto e nada. Um segundo lampejo de lucidez e Maurício dispara:
-Já sei!!! Levei umas cuecas pra minha mãe lavar, deve ter ido junto!!!
-Maurício Fernando, eu não acredito!!! Como é que tu me passa semanas sem ver a tua mãe e quando vai, ainda leva esse tipo de missão pra ela???? Caramba!!! E ainda por cima com uma calcinha junto???? Não posso acreditar!!!!
Joana estava desolé... Ela nem conhecia a provável futura ex-sogra e suas calcinhas já estavam lá. Ainda que fosse uma decente, dessas que pessoas normais usam, com um ursinho ou um coelhinho desenhado na bunda. Mas naquela o máximo que se poderia desenhar na retaguarda era uma abelha, e das bem pequenas!!! Que situação...
A tranqüilidade de Maurício Fernando perante o acontecimento a deixava ainda mais desconfiada, para não dizer irritada. "Como que ele acha normal??? Será que isso acontece o tempo todo?" Mas já era tarde, nesse momento a sua com certeza futura ex-sogra deveria estar pensando com que tipo de 'atriz' seu amado caçula estava se metendo.
A mente maquiavélica de Joana já planejava, na próxima visita à "mama", colocar na mala das roupas sujas de Maurício um punhado da decoração 'atípica' do assoalho do banheiro e quem sabe uma daquelas garrafas vazias de Dewar's que se amontoavam na prateleira da sala, onde deveriam estar os livros da suposta faculdade de medicina.
Mas como seu forte nunca foi a vingança, esqueceu o plano e voltou à vida normal, sem mais pensar no que poderia ter acontecido à underwear.
E foi novamente num daqueles momentos mega íntimos do casal agora mega apaixonado (ai, ai... suspiros da narradora...um dia também quero um amor errado assim...), em meio a beijinhos e abraços e cafunés, que Maurício Fernando largou:
-Babe, liguei pra minha mãe.
-E...
-Ah, perguntei pra ela se tua calcinha foi pra lá... Ela disse que não!
-Não acreditoooooo!!!!! Ai, to com vergonha, tô roxa de vergonha!!!!!
-Agora, fala sério: aonde tu esqueceu essa p... de calcinha??? Aqui não foi!!! My girl, my girl, don't lie to me... tell me where did u sleep last night???
-Ai, não me vem atacar de Kurt Cobain que eu não sirvo para Courtney Love!!! E tu sabe bem disso!!!
-Olha aqui garota, acho bom tu me dizer agora!!! Aonde pode ter ficado isso??? Aonde mais tu anda tirando a roupa, caramba???
-Maurício Fernando Fresquinho Balaqueiro!!! Não fala assim comigo! E é o TEU passado que te condena, e além do mais, eu não sou idiota! Se eu suspeitasse que tivesse deixado qualquer parte da minha roupa em território alheio tu acha mesmo que eu ia te dizer? Caramba, guri! Olha pra mim, pra ti, pra nós! EU TE AMO!! Ou amava, não sei...
Pronto, ela falou. A tão temida frase, proferida assim, no meio da primeira briga... Poderia ter sido diferente. Mas agora as lágrimas já escorriam pelo rosto de novo (retardada...) enquanto ela juntava a roupa espalhada e dobrava o vestido que usaria no jantar. E foi então que, como num passe de mágica, ao ajeitar as saias do vestido, eis que do meio do voil surge ela: THE VIOLET UNDERWEAR!
-Ai não creio!!!! Lavei junto com o vestido!!! Joguei tudo na máquina, deve ter embolado!
-É bem o teu tipinho mesmo, sua bagunceira!
A calcinha jazia no chão do quarto, com os olhares embasbacados dos dois por sobre a cena. Tempestade em copo d'agua, coisas de Joana, por causa dela quase que se vai pela janela um princípio de relacionamento.
-Vamos combinar uma coisa? Eu caso contigo se tu deixar de ser neurótica!
Oh, o princípio de relacionamento está salvo! E quem voa pela janela é a calcinha, ela, outrora tão desejada, agora símbolo da discórdia e da raiva.
-Ok, desapego total e geral! Chega de neura, né? E já que agora é assim, pela janela todas essas porcarias de revistas e essas cachaças e todo o resto!
Naquele dia, cada um deles se livrou de tudo o que pertencia à vida anterior. No apê do Mauricinho, agora sempre lençóis limpinhos e frescos, champagne gelando e as duas taças no armário. E Joana agora guardava os tikets de pedágio das viagens dos dois, as rolhas de champagnhe (identificadas com data e motivo da comemoração) e os inúmeros bilhetinhos que volta e meia encontrava no armário, embaixo do travesseiro, dentro dos sapatos.
As pessoas não mudam, nunca. Apenas encontram uma nova direção.
PS: Porquê? Ah, porque até mesmo as comédias românticas de Hollywood tem um final meloso. Essa história não acaba aqui. Aliás, já dura quase 5 meses, os primeiros de todos os meses do resto de nossas vidas.
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